França ordena bloqueio do Polymarket e reacende o cerco aos mercados preditivos
Regulador francês manda provedores cortarem o acesso à plataforma por jogo ilegal; Brasil e países europeus já haviam agido no mesmo sentido.
O bloqueio do Polymarket ordenado pela ANJ à rede de provedores franceses eleva o caso dos mercados preditivos de uma restrição de transações para o corte total de acesso. A França acusa a plataforma de operar jogo de azar sem licença, sem controles de identidade e idade e com suspeita de manipulação de mercados climáticos. O movimento se soma ao de uma dúzia de países europeus e ao próprio Brasil, que em abril mandou a Anatel derrubar 27 sites do tipo. Para quem opera na fronteira entre tecnologia financeira, compliance e proteção do consumidor, a fragmentação regulatória vira decisão de negócio: onde a marca fica acessível, sob qual licença e com quais salvaguardas.

O presidente da Autorité nationale des jeux (ANJ), regulador de jogos de azar da França, assinou em 16 de julho de 2026 a ordem que obriga os provedores de acesso à internet do país a bloquear o site do Polymarket e suas variações. A medida foi confirmada publicamente no dia seguinte e trata a plataforma de mercados preditivos como oferta de jogo de azar não autorizada, ilegal sob a lei francesa, segundo o FinanceFeeds e o CoinDesk.
O bloqueio do Polymarket foi sustentado em números de audiência: só em junho de 2026, o site somou 578.751 visitas e 205.057 visitantes únicos da França, conforme estimativas da Similarweb citadas pela própria ANJ. O regulador invocou o poder administrativo de bloqueio, que permite ordenar aos provedores o corte de acesso a interfaces ilegais e exigir que buscadores parem de indexá-las, conforme a notificação publicada em seu site.
De geobloqueio voluntário a bloqueio nacional
A França já havia entrado no caso em novembro de 2024, quando a ANJ notificou a Adventure One QSS Inc., empresa sediada no Panamá identificada como operadora do Polymarket, e obteve a instalação de um geobloqueio que barrava transações de usuários franceses. A escalada de julho nasceu do reconhecimento de que aquele controle não encerrou o acesso: bastava uma VPN para contornar a barreira, e a página inicial seguia exibindo cotações ao vivo para um público francês numeroso.
Para o regulador, essa vitrine de probabilidades atualizadas em tempo real funcionava como promoção. E, na lei francesa, divulgar cotações de jogo não autorizado é crime punível com multa de até 100 mil euros (114.347 dólares), aponta o iGaming Business. Não é a primeira vez que a ANJ recorre ao bloqueio administrativo: em 2025, foram 1.290 URLs derrubadas por ligação com jogo ilegal, segundo o CryptoSlate.
KYC ausente e sensor de temperatura adulterado
As razões do bloqueio vão além da classificação como jogo. A ANJ apontou a falta de procedimentos eficazes de conhecimento do cliente (KYC), o processo de verificação de identidade e idade dos usuários exigido pelas regras francesas e europeias, e os riscos de vício num produto de acesso contínuo e distribuição viral, sem limites de aposta nem períodos de pausa.
Um caso concreto ancorou a suspeita de manipulação. A Météo-France apresentou queixa sobre um sensor de temperatura adulterado usado para influenciar mercados climáticos na plataforma. O Ministério Público de Paris abriu investigação em 4 de maio de 2026 e encarregou a unidade francesa de combate ao cibercrime (OFAC) do caso, segundo o iGaming Business. Mercados que liquidam conforme dados externos expõem uma fronteira difícil: o resultado pode ser distorcido por acesso privilegiado à informação, mesmo sem o apostador tocar diretamente no contrato, observa o FinanceFeeds.
Nove reguladores europeus e um cerco em rede
O movimento francês não é isolado. Em 17 de junho de 2026, nove reguladores europeus, de Bélgica, França, Alemanha, Itália, Holanda, Polônia, Portugal, Espanha e Suíça, anunciaram uma iniciativa conjunta contra plataformas de mercados preditivos sem licença local, no momento em que começava a Copa do Mundo de 2026. O conjunto de ferramentas vai de advertências e multas a bloqueios de serviço, restrições de publicidade e congelamento de contas.
A ANJ contabiliza 12 jurisdições europeias que já restringiram ou bloquearam esses mercados, entre elas Alemanha, Bélgica, Romênia, Suíça, Polônia, Holanda, Grécia, Itália, Portugal, Espanha, Ucrânia e República Tcheca. A Ucrânia impôs bloqueio via provedores em janeiro, segundo o CoinDesk. A pressão regulatória mira um negócio em expansão: uma fonte disse à Reuters, em junho, que a receita anualizada do Polymarket passou de 1 bilhão de dólares, relata o FinanceFeeds.
Brasil já mandou a Anatel derrubar 27 sites
No Brasil, o desfecho veio antes. Em 24 de abril de 2026, o Ministério da Fazenda ordenou à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) o bloqueio de 27 sites de mercados preditivos, incluindo o Polymarket, classificando o segmento como mercado ilegal de apostas. A decisão se apoiou na Resolução CMN nº 5.298, que organiza o mercado de derivativos e veda a oferta de contratos vinculados a eventos esportivos, jogos on-line e acontecimentos políticos, eleitorais, sociais, culturais e de entretenimento, conforme noticiaram o Estado de Minas e o VBSO.
O ministro Dario Durigan enquadrou os mercados de previsão sob a mesma lógica das bets, sujeitando-os ao mesmo regime de fiscalização: bloqueio de sites com a Anatel e corte de fluxos com instituições financeiras e de pagamento. A motivação declarada foi conter o endividamento da população a meses das eleições, num setor que já reúne 85 empresas autorizadas. Mesmo fora do ar, o Polymarket movimentou cerca de 60 milhões de dólares em apostas sobre a eleição brasileira de outubro, apurou O Tempo.
Os mercados de predição não são legais, não são regulares no Brasil— Dario Durigan, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Estado de Minas / AFP · em.com.br
Polymarket vai à Justiça e testa o limite do bloqueio
A empresa promete contestar o bloqueio do Polymarket na Justiça francesa. O argumento é de desproporção: como as transações a partir da França estão desativadas desde novembro de 2024, a ordem atingiria sobretudo quem acessa o site para informação, não para apostar. O Polymarket sustenta que seus contratos são instrumentos financeiros negociados entre usuários, sem que a plataforma assuma a ponta contrária das operações, o que, no seu entender, a distingue de um operador de jogo.
Há um limite técnico que o caso expõe. A ordem alcança o site e a camada de serviço, não os contratos que liquidam na blockchain Polygon, segundo o CryptoSlate: o bloqueio encarece a distribuição e o acesso do público geral, mas não desliga o mercado no nível do protocolo. Enquanto a Europa trata mercados preditivos como jogo e os Estados Unidos discutem regras de derivativos na CFTC, que divulgou minuta em junho, a fragmentação transforma cada fronteira em decisão de compliance: onde a marca fica acessível, sob qual licença e com quais controles de identidade e idade.
We were surprised at the ANJ decision to block access to our entire website because their measure targets people going to Polymarket purely for information— Polymarket, Comunicado à imprensa, via CoinDesk · coindesk.com
Revisão editorial: Ricardo Nery
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Na data de 15 de agosto de 2026, momento da publicação desta notícia compilada, todos os links estavam disponíveis. Não nos responsabilizamos nem controlamos eventuais alterações, remoções das URLs ou modificações no conteúdo das fontes consultadas.

