China aproxima lançamento comercial do mBridge, rival do SWIFT em moeda digital
Plataforma de pagamentos transfronteiriços em CBDC, liderada por Pequim, vai operar de Hong Kong com tarifas pela metade das do SWIFT e foco em PMEs.

A China entrou na fase final de preparação para o lançamento comercial do mBridge, plataforma de pagamentos transfronteiriços que liquida diretamente em moedas digitais de bancos centrais (CBDC) e foi desenhada para operar fora do SWIFT e da rede de bancos correspondentes. O Financial Times revelou em 13 de junho, com base em fontes próximas ao projeto, que a operação será conduzida por uma entidade sediada em Hong Kong e reúne o Banco Popular da China, a Autoridade Monetária de Hong Kong e os bancos centrais da Tailândia, dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita.
Segundo o noticiado, as tarifas devem ficar em torno da metade das praticadas por sistemas internacionais tradicionais, com liquidação em segundos e mira nas pequenas e médias empresas que consideram o SWIFT caro e complexo. Para áreas de governança, o ponto não é a tecnologia: é o surgimento de um trilho de liquidação multilateral que retira o dólar da posição de moeda intermediária e desloca fluxos para fora da infraestrutura que hoje ancora controles de sanções e prevenção à lavagem.
De piloto do BIS a infraestrutura operacional
O projeto não nasceu em 2026. O mBridge começou em 2021 sob o Innovation Hub do Banco de Compensações Internacionais (BIS) com quatro bancos centrais; a Arábia Saudita aderiu em 2024 e a plataforma chegou ao estágio de produto mínimo viável (MVP) em meados daquele ano.
O salto de escala é o que muda a leitura. No piloto de 2022 conduzido pelo BIS, 20 bancos realizaram 164 transações somando cerca de US$ 22 milhões em seis semanas. Até novembro de 2025, segundo dados do Banco Popular da China compilados pelo Atlantic Council, o volume acumulado alcançou US$ 55,49 bilhões em mais de 4 mil transações — alta de cerca de 2.500 vezes ante 2022 —, com o yuan digital (e-CNY) respondendo por 95,3% do total liquidado.
Depois que o BIS transferiu a governança aos bancos centrais participantes, em outubro de 2024, a atividade acelerou. Em novembro de 2025, o Ministério das Finanças dos Emirados executou a primeira transação governamental com dirham digital de atacado na rede, testando integração direta entre sistemas de pagamento públicos sem intermediários.
Pagamento sem banco correspondente muda o compliance
A arquitetura que torna o mBridge atraente é a mesma que preocupa quem responde por compliance: ao liquidar CBDC contra CBDC entre bancos centrais, a rede dispensa o banco correspondente — exatamente o ponto onde, hoje, transações são triadas para fins de sanções e prevenção à lavagem de dinheiro.
A plataforma incorpora medidas de combate ao financiamento ao terrorismo, segundo descrições do projeto, mas remove os intermediários que executam grande parte do screening no modelo atual. Para diretores jurídicos, DPOs e áreas de risco de empresas brasileiras com contrapartes ou operações nos corredores China–Golfo, isso altera premissas de due diligence: a verificação deixa de depender de bancos correspondentes em jurisdições de regras conhecidas e passa a depender das regras de cada banco central participante.
O Atlantic Council aponta que o mBridge está cada vez mais voltado à liquidação de comércio em energia e commodities — setores em que a China já é peça central e nos quais empresas brasileiras competem e negociam.
Yuan em máxima de 3 anos eleva exposição cambial
O pano de fundo monetário reforça por que o tema chega ao board. Em maio, o Banco Popular da China fixou a paridade de referência do yuan em 6,8349 por dólar, o nível mais forte desde fevereiro de 2023, e bancos globais revisaram projeções para cima: o HSBC passou a ver 6,65 no fim de 2026, o Deutsche Bank 6,55 e o Goldman Sachs 6,50 em doze meses.
A demanda por liquidação em yuan também bateu recorde. O sistema CIPS — distinto do mBridge, mas parte da mesma infraestrutura de internacionalização — registrou pico de 1,22 trilhão de yuans (cerca de US$ 178,5 bilhões) em um único dia, com quase 42 mil transações, segundo a imprensa estatal citada pelo South China Morning Post.
A substância das dúvidas que executivos financeiros levantam, conforme essas reportagens, é prática: exposição cambial, gestão de tesouraria e a decisão de adotar ou não trilhos em yuan. O próprio Atlantic Council pondera que o mBridge dificilmente substituirá o dólar, mas pode erodi-lo em corredores e setores específicos.
e-CNY com juros e plano quinquenal aceleram a agenda
O cronograma à frente combina infraestrutura e política. Desde 1º de janeiro de 2026, o yuan digital passou a ter remuneração por juros — recurso que aproxima o e-CNY de um ativo quase-poupança e que, segundo o Atlantic Council, faz da China a primeira grande economia a operar essa função em escala.
No plano de Estado, a internacionalização do renminbi é diretriz do 15º Plano Quinquenal (2026–2030). Bancos estatais como o ICBC lançaram, em abril, soluções de renminbi transfronteiriço para implementar essas metas, incluindo cooperação na África por meio de acordo com o sul-africano Standard Bank.
Para o leitor brasileiro, há um sinal concreto de proximidade: o Banco Central do Brasil figura como observador do mBridge na lista do BIS, ao lado de outras autoridades monetárias. O regulador ainda não converteu isso em obrigação, mas acompanha de perto uma arquitetura que o Atlantic Council projeta poder entrar em operação plena neste ou no próximo ano.
Saída do BIS e o fantasma das sanções
Nem todos enxergam o mBridge como infraestrutura neutra. Em outubro de 2024, o BIS deixou o projeto poucos dias após a cúpula dos BRICS em Kazan, onde Vladimir Putin propôs um sistema de pagamentos alternativo ao dólar. O diretor-geral do BIS, Agustín Carstens, classificou a saída como uma graduação e afirmou categoricamente que o mBridge não é a ponte dos BRICS, reforçando que a instituição não pode operar com países sob sanções — Rússia e Irã estão entre os membros do bloco ampliado.
De um lado, críticos sustentam que a rede pode reduzir a eficácia das sanções ocidentais ao contornar o sistema de bancos correspondentes, hoje o principal instrumento de enforcement. De outro, o BIS nega pressão política e atribui a saída ao amadurecimento do projeto.
O desfecho institucional reorganizou o tabuleiro. O BIS migrou o foco para o Projeto Agorá, iniciativa concorrente com sete bancos centrais ocidentais, entre eles o Federal Reserve de Nova York, o Banco da Inglaterra e o Banco do Japão.
Na data de 2 de julho de 2026, momento da publicação desta notícia compilada, todos os links estavam disponíveis. Não nos responsabilizamos nem controlamos eventuais alterações, remoções das URLs ou modificações no conteúdo das fontes consultadas.

