Segunda, 17 de agosto de 2026 · Ed. nº 0076 EditorialSobreAutoresMetodologiaCompiladosAcervoContato
Cibersegurança

Falha em carteira hardware Coldcard drena US$ 130 milhões em bitcoin

Bug de firmware na Coldcard, da Coinkite, permitiu recriar chaves de carteiras offline e drenar mais de US$ 130 milhões em bitcoin desde 30 de julho.


Resumo executivo

Hackers exploraram uma falha de firmware na carteira hardware Coldcard, da Coinkite, e drenaram mais de US$ 130 milhões em bitcoin de carteiras que nunca se conectaram à internet. O defeito, presente no código desde 2021, tornava previsível a geração das seeds e permitia recriar as chaves por força bruta. A Coinkite assumiu a responsabilidade e mandou os usuários migrarem para novas seeds. O caso expõe o risco de fornecedor na custódia própria de ativos digitais e chega às vésperas de o novo marco do Banco Central para ativos virtuais entrar em vigor no Brasil.

ataque hacker drena milhões de bitcoins
Cadê meu bitcoin que estava aqui?. Imagem ilustrativa gerada pelo ChatGPT.

Carteiras que ficam desconectadas da internet são vendidas como a forma mais segura de guardar bitcoin. Foi exatamente uma dessas carteiras hardware — a Coldcard, fabricada pela canadense Coinkite — que hackers esvaziaram em série, num roubo que já passou de US$ 130 milhões, segundo a Galaxy Research e a empresa de monitoramento de blockchain Elliptic.

Tom Robinson, cofundador e cientista-chefe da Elliptic, disse à TechCrunch que a estimativa de US$ 130 milhões está aproximadamente correta. A Galaxy identificou pelo menos uma dúzia de atacantes e não vê indício de um grupo único por trás dos desvios.

O caso interessa a quem cuida de custódia de ativos digitais porque quebra a premissa central desse tipo de produto: a chave privada nunca tocou a internet e, mesmo assim, o dinheiro sumiu.

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Uma linha de código de 2021 abriu a fechadura

A falha está na forma como a Coldcard sorteava a seed — a sequência de 12 palavras que funciona como senha mestra da carteira. Em vez de usar o gerador de números aleatórios do chip de segurança, um erro de firmware introduzido em 1º de março de 2021 passou a chamar um gerador de software previsível, alimentado pelo identificador único do processador e por registradores de tempo do aparelho, dados que não são secretos.

Segundo pesquisadores da Block, a biblioteca libngu verificava se a variável MICROPY_HW_ENABLE_RNG existia, e não se estava ligada; o resultado foi o uso de um gerador de reserva do MicroPython. As seeds do modelo Mk3 saíram com cerca de 40 bits de entropia efetiva, contra os 128 bits que uma frase de 12 palavras deveria ter, calcula a própria Coinkite.

Com entropia tão baixa, o atacante não precisou arrombar o cofre: bastou recriar as chaves por força bruta e comparar os endereços gerados com o que já está público na blockchain. Como resumiu a TechCrunch, os hackers descobriram como cortar cópias das chaves em escala.

Perhaps the hardest part about this is that I did everything rightJonathan Goodman, usuário que afirma ter perdido US$ 1,6 milhão, em post no X citado pela TechCrunch · techcrunch.com

US$ 70 milhões drenados em 41 minutos

A velocidade dá a dimensão do problema. Em 30 de julho, um único atacante varreu 1.196 endereços em 41 minutos, levando 1.082,65 BTC — cerca de US$ 70,2 milhões à época —, mapeou a Galaxy Research. Antes disso, a CoinDesk já havia registrado uma varredura de 594,48 BTC, aproximadamente US$ 38,3 milhões, em 25 minutos.

Ondas seguintes elevaram a perda observada pela Galaxy a 1.367 BTC, cerca de US$ 88,6 milhões em 4.585 endereços, até o total ultrapassar US$ 130 milhões nos dias seguintes.

O episódio entra num ano já pesado para o setor: a TRM Labs contabiliza mais de 200 ataques a empresas de criptoativos em 2026, com perdas acima de US$ 950 milhões apenas no primeiro semestre.

Fabricante assume a culpa e manda migrar a seed

A Coinkite publicou alerta na quinta-feira, atualizado no sábado, e liberou firmware de emergência para todos os modelos afetados em 31 de julho. A correção, porém, não conserta uma seed já gerada: quem tem chave exposta precisa criar outra em firmware corrigido e transferir as moedas, sob risco de carregar a vulnerabilidade adiante.

Rodolfo Novak, presidente da Coinkite, assumiu publicamente a responsabilidade pela falha, disse estar 'devastado' e pediu desculpas aos usuários, conforme FinanceFeeds e Cryptopolitan. Ele também levantou a hipótese de que o defeito, adormecido no código desde 2021, teria sido encontrado com auxílio de ferramentas de inteligência artificial, capazes de vasculhar código público mais rápido que uma revisão convencional.

Para quem terceiriza a guarda de ativos, o recado é direto: o risco de fornecedor não termina na compra do dispositivo — um defeito de firmware do fabricante vira perda direta e, aqui, irreversível do cliente.

No Brasil, autocustódia entra no radar do BC

O momento é sensível no Brasil. Em 10 de novembro de 2025, o Banco Central publicou as Resoluções BCB 519, 520 e 521, que colocam as prestadoras de serviços de ativos virtuais dentro do mercado regulado, com regras de governança, segurança, controles internos e prevenção à lavagem de dinheiro. As normas entram em vigor em 2 de fevereiro de 2026.

A partir de 4 de maio de 2026, transferências de e para carteiras autocustodiadas passam a ser tratadas como operações de câmbio e precisam ser informadas ao Banco Central; pagamentos internacionais com ativos virtuais ficam limitados ao equivalente a US$ 100 mil quando a contraparte não for instituição autorizada. A base vem da Lei 14.478/2022, que fixou diretrizes para o setor, e do Decreto 11.563/2023, que definiu o Banco Central como regulador.

Uma carteira hardware não é, em si, regulada pelo Banco Central, mas o ambiente ao redor dela passa a ser: a corretora que recebe ou envia recursos de uma carteira autocustodiada terá de identificar o titular e reportar a operação.

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O golpe reacende a briga sobre custódia própria

O caso alimenta uma disputa antiga do setor. A máxima 'not your keys, not your coins' defende que guardar a própria chave é mais seguro que confiar em uma corretora; o episódio Coldcard mostra que a custódia própria em carteira hardware também depende da qualidade do fornecedor de hardware e software, como ponderam análises da IG e da BeInCrypto.

Há ainda a questão da atribuição. A Galaxy alertou que sua leitura é on-chain e que não confirmou, por cálculo, que cada endereço apontado nasceu de entropia fraca; e que uma varredura desse tipo, para quem observa a blockchain, 'looks the same as if a coin owner chose to move coins'.

Soma-se a isso o alerta, levantado pela própria fabricante, de que a inteligência artificial acelera a descoberta de falhas esquecidas em código aberto — vetor que tende a expor outros produtos antes tidos como seguros.

Revisão editorial:

Compilado produzido com apoio de automação a partir das fontes listadas, com edição e revisão humanas antes da publicação.

Na data de 17 de agosto de 2026, momento da publicação desta notícia compilada, todos os links estavam disponíveis. Não nos responsabilizamos nem controlamos eventuais alterações, remoções das URLs ou modificações no conteúdo das fontes consultadas.