Jersey vê ‘sem desculpa’ e mira IA e crianças na proteção de dados
Comissário de Jersey diz não haver desculpa para falhas básicas e mira cibersegurança, IA em RH e privacidade de crianças; agenda ecoa ANPD e ECA Digital.
O comissário da Informação de Jersey, Paul Vane, afirmou não haver desculpa para falhas básicas de proteção de dados e apresentou as prioridades do regulador para 2026-2028: cibersegurança, uso ético de inteligência artificial e privacidade de crianças.
Pesquisa oficial mostrou que 40% das organizações não treinam suas equipes e que avaliações de impacto seguem escassas.
As três frentes espelham o Mapa de fiscalização da Agência Nacional de Proteção de Dados no Brasil e a entrada em vigor do ECA Digital, que já cobra verificação etária efetiva de plataformas acessíveis a crianças e adolescentes.

O comissário da Informação de Jersey, Paul Vane, afirmou que não há desculpa para uma organização não ter ao menos o básico da proteção de dados em ordem, ao apresentar as prioridades do Escritório do Comissário da Informação (JOIC) para 2026-2028. À BBC, ele resumiu a mentalidade que quer combater na ilha: a ideia de que, cercada de água, ela estaria automaticamente protegida.
O plano do regulador fixa três frentes — cibersegurança, uso ético de inteligência artificial e privacidade de crianças —, detalhadas no relatório de prioridades estratégicas publicado pelo próprio JOIC. Vane lembrou que a distância geográfica deixou de ser barreira: um garoto de 12 anos em outro país, de pijama no quarto, pode disparar um ataque cibernético contra um negócio local.
There's no excuse why an organisation shouldn't at least have the very basics of data protection right.— Paul Vane, BBC News · bbc.com
Tinta secou e prazo para desculpas acabou
A cobrança vem lastreada em números. Pesquisa do JOIC divulgada em julho apontou que 40% das organizações responderam não ter tempo para realizar qualquer treinamento em proteção de dados, resultado que Vane classificou como chocante ao Jersey Evening Post.
O comissário afirmou que as avaliações de impacto — o exercício de mapear riscos antes de tratar informação sensível — não acontecem na frequência devida, e que as empresas deixam de consultar o escritório em tratamentos de alto risco. Ele resumiu que a tinta secou na lei de proteção de dados há anos e que o tempo das desculpas passou, ao marcar quase oito anos de vigência da norma local.
Para responder a esse quadro, o JOIC adotou o modelo Advise-Assess-Act (orientar, avaliar e agir), com sinalização de fiscalização sem demora onde houver risco aos cidadãos.
IA em RH acende alerta de vigilância
O segundo eixo mira o uso de inteligência artificial na gestão de pessoas. O relatório do JOIC advertiu sobre a aplicação da tecnologia em recrutamento, avaliação de desempenho e gestão de faltas, apontando riscos inerentes de privacidade — entre eles o uso indevido de informações pessoais e a vigilância excessiva.
O tema ecoa no Brasil. Em dezembro, a Agência Nacional de Proteção de Dados publicou o Mapa de Temas Prioritários para o biênio 2026-2027 e colocou a inteligência artificial entre os quatro eixos de fiscalização, ao lado dos direitos dos titulares, da proteção de crianças e adolescentes e do tratamento de dados pelo Poder Público.
No recorte de recursos humanos, análises sobre o Mapa apontam a triagem automatizada de currículos como ponto sensível: a empresa precisa demonstrar processo de revisão humana acessível, direito que a LGPD assegura ao titular diante de decisões tomadas exclusivamente por algoritmo.
Crianças e EdTech no centro da agenda
A terceira prioridade é a privacidade de crianças, sobretudo diante da expansão da tecnologia educacional. O relatório descreveu a EdTech — de tutores baseados em IA a aplicativos de organização escolar — como claramente útil, mas cercada de riscos de privacidade à medida que se espalha pelas escolas.
O paralelo brasileiro é imediato. O ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), que estabelece deveres para produtos e serviços digitais acessíveis a crianças e adolescentes, entrou em vigor em 17 de março de 2026 e atribuiu à Agência Nacional de Proteção de Dados o papel de regular e fiscalizar seu cumprimento.
Entre as mudanças, a autodeclaração de idade deixou de ser mecanismo válido: a lei passou a exigir verificação etária efetiva, e os dados coletados para essa checagem não podem ser usados para personalização de conteúdo ou publicidade.
Economia da ilha entra na conta do risco
O custo de ignorar o tema aparece no discurso do regulador em chave econômica. Vane alertou que a falha coletiva em proteção de dados pode fazer a ilha perder a própria economia, num território cujo setor de serviços financeiros depende da confiança no tratamento de informação, conforme o Island FM.
No calendário regulatório, os sinais se acumulam dos dois lados do Atlântico. O Mapa da Agência Nacional de Proteção de Dados prevê ao menos 75 ações de fiscalização no biênio, com inspeções dirigidas a sistemas de inteligência artificial e ao tratamento de dados de menores.
No Brasil, o ECA Digital avança por etapas: a segunda fase, com prazo até 31 de dezembro de 2026, amplia o escopo para serviços de maior risco, como jogos on-line, marketplaces e redes sociais.
Rigor sim, demonização da tecnologia não
A escuta na ilha não é uníssona. Tony Moretta, do hub de tecnologia Digital Jersey, considerou correto haver controles robustos de dados, mas afirmou temer que o escrutínio sobre plataformas digitais afaste as escolas do uso responsável da tecnologia.
Ele criticou o que chamou de deslize no debate público — a ideia de que a tecnologia é ruim e deveria ser banida das escolas — e defendeu o foco em como usá-la com segurança, distinguindo o uso não saudável de redes sociais do desenvolvimento de habilidades para resolver problemas com IA.
A divergência sintetiza o equilíbrio que reguladores dos dois lados do Atlântico buscam: exigir o básico da proteção de dados sem transformar a cautela em veto à inovação que já está dentro de empresas e salas de aula. Não por acaso, as autoridades de Jersey e Guernsey aderiram a uma declaração global contra o uso abusivo de imagens geradas por IA, sinal de que o escrutínio sobre a tecnologia tende a crescer.
In our view, the focus should be on how you use technology, and how you use it safely.— Tony Moretta, BBC News · bbc.com
Revisão editorial: Ricardo Nery
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Na data de 18 de agosto de 2026, momento da publicação desta notícia compilada, todos os links estavam disponíveis. Não nos responsabilizamos nem controlamos eventuais alterações, remoções das URLs ou modificações no conteúdo das fontes consultadas.


