Quarta, 5 de agosto de 2026 · Ed. nº 0064 COMPILADO DAS 08H00 EditorialSobreAutoresMetodologiaCompiladosContato
Inteligência Artificial

Netflix diz ter usado IA generativa em cerca de 300 títulos em 2026

Divulgação no balanço do 2º trimestre expõe a política de fornecedores da empresa e antecipa a rotulagem obrigatória na Europa.


Resumo executivo

A Netflix informou a acionistas que usou fluxos de inteligência artificial generativa em cerca de 300 títulos em 2026, sem dizer em quais obras nem em que etapa.
A própria política de fornecedores da empresa condiciona a aprovação escrita o uso de dados pessoais, de imagem de talentos e de propriedade intelectual de terceiros.
Em maio, SAG-AFTRA e AMPTP fecharam acordo com doze dispositivos sobre réplicas digitais, consentimento e remuneração.
Na Europa, as obrigações de transparência do Regulamento de IA entram em vigor em 2 de agosto, com multa de até 15 milhões de euros ou 3% do faturamento global.
No Brasil, o PL 2338/2023 segue na Câmara, e a Agência Nacional de Proteção de Dados já tratou conteúdo sintético que identifica pessoa natural como tratamento de dado pessoal.

Netflix usando IA Generativa
Quem assiste quem, aqui?. Imagem ilustrativa gerada pelo ChatGPT.

A Netflix informou a acionistas, na carta de resultados do segundo trimestre divulgada em 16 de julho, que fluxos de trabalho de inteligência artificial generativa foram usados em cerca de 300 títulos ao longo de 2026 — a maior concentração deles na pós-produção.

Ted Sarandos, co-CEO da empresa, citou o caso de "The American Experiment": 17 minutos de imagens aprimoradas por IA produzidos, segundo ele, "duas vezes mais rápido e pela metade do custo" das alternativas anteriores. A série indiana "Glory" e a brasileira "Brasil 70: A Saga do Tri" também entraram na lista, com cenas de multidão ampliadas e sequências históricas recriadas.

O número não descreve 300 obras geradas por máquina, e sim produções em que ferramentas generativas entraram em alguma etapa. É essa distinção que a política de fornecedores da própria empresa tenta disciplinar: o Partner Help Center exige que todo parceiro comunique previamente qualquer uso pretendido de IA generativa e obtenha aprovação escrita quando o resultado envolver entregas finais, imagem de talentos, dados pessoais ou propriedade intelectual de terceiros.

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A política que a Netflix impõe a quem produz para ela

O documento "Using Generative AI in Content Production" organiza cinco princípios: as saídas não podem replicar material protegido de terceiros; as ferramentas não podem armazenar, reutilizar ou treinar com os dados da produção; o uso deve ocorrer em ambiente empresarial protegido; o material gerado deve ser temporário e ficar fora das entregas finais; e a IA generativa não substitui performances de talentos nem trabalho sindicalizado sem consentimento.

Quatro grupos de situações exigem aprovação escrita, segundo o texto: inserir material proprietário da Netflix ou dados pessoais de elenco e equipe em ferramentas não aprovadas; treinar ou ajustar modelos com obras de artistas e detentores de direitos sem licenciamento; criar réplicas digitais de voz ou imagem de intérpretes reais sem consentimento documentado; e gerar conteúdo capaz de ser confundido com fatos, pessoas ou declarações reais.

Uma matriz de triagem acompanha o guia e separa os casos por semáforo: moodboards e imagens de referência passam sem escalonamento; elementos de cenário que aparecem em câmera dependem de julgamento e escalam se forem relevantes para a história; design final de personagem, rejuvenescimento digital e voz sintética param no jurídico. Quando o fornecedor usa um pipeline montado com várias ferramentas, a empresa determina que cada etapa atenda aos mesmos padrões.

Consentimento vira cláusula no contrato de Hollywood

Em 2 de maio de 2026, o SAG-AFTRA e a AMPTP fecharam acordo preliminar para o contrato de TV e cinema sucessor do de 2023. O resumo publicado pelo sindicato reúne doze dispositivos sobre inteligência artificial.

Réplicas digitais — reproduções de intérpretes vivos ou falecidos geradas por IA — passam a depender de consentimento informado e remuneração. O acordo trata ainda da segurança no armazenamento dessas réplicas, cria penalidade pelo uso de intérprete sintético no lugar de um ator real e obriga o estúdio a avisar o profissional quando licenciar seus dados a terceiros para treinamento de modelos.

A penalidade pelo uso de personagem sintético foi apelidada no setor de "Tilly tax", segundo a Fortune. Duncan Crabtree-Ireland, diretor executivo nacional e negociador-chefe do SAG-AFTRA, disse ao IndieWire que o desfecho sem greve se explica pela mudança de postura de estúdios e serviços de streaming na mesa — contraste com os 118 dias de paralisação de 2023, quando o uso de IA foi um dos eixos da disputa.

US$ 20 bilhões em conteúdo e a conta da eficiência

O orçamento de conteúdo deve crescer 10% em 2026 e chegar a US$ 20 bilhões, contra média de 8% ao ano no último quinquênio, informou a Fortune. A economia obtida com as ferramentas generativas, disse Sarandos, será reinvestida em mais produção.

No trimestre, a receita subiu 13%, para US$ 12,6 bilhões, com lucro líquido de US$ 3,4 bilhões e margem operacional de 33,4%. A projeção anual foi estreitada para a faixa de US$ 51 bilhões a US$ 51,4 bilhões, com margem de 31,5%. A ação caiu mais de 8% no after-hours de quinta-feira, e a Reuters registrou projeção de terceiro trimestre abaixo das expectativas de Wall Street.

O engajamento é o ponto que os analistas pressionaram: os assinantes assistiram a mais de 97 bilhões de horas no primeiro semestre, alta de apenas 2% na comparação anual. A empresa anunciou que passará a publicar o relatório de engajamento uma vez por ano a partir de 2027 e recomprou US$ 4,7 bilhões em ações no trimestre, a maior recompra trimestral de sua história.

A aposta em ferramentas próprias tem preço declarado: a compra da InterPositive, empresa de tecnologia audiovisual fundada por Ben Affleck, saiu por até US$ 600 milhões em março de 2026, segundo a Bloomberg, e somou uma equipe de 16 pessoas à operação.

Brasil 70 na lista e o vácuo regulatório local

"Brasil 70: A Saga do Tri", minissérie sobre a campanha do tricampeonato de 1970 que estreou em 29 de maio, aparece entre os títulos citados pela Netflix, informou o Times Brasil. A produção dramatiza fatos reais e recria personagens históricos.

Não há no país regra específica sobre rotulagem de conteúdo audiovisual gerado por IA. O PL 2338/2023, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024, segue em tramitação na Câmara dos Deputados: classifica sistemas por nível de risco, assegura às pessoas afetadas direitos de transparência, explicação e contestação de decisões automatizadas, cria um sistema nacional de regulação e governança e prevê sanções que chegam a R$ 50 milhões por infração.

Profissionais de dublagem levaram o tema ao Congresso em audiência pública, pedindo proteção legal contra o uso de vozes geradas por IA e remuneração de autores cujas obras alimentem sistemas — reivindicação que o Movimento Dublagem Viva associa à aprovação do próprio PL 2338.

A Agência Nacional de Proteção de Dados já demarcou a fronteira que interessa a quem produz. Na Nota Técnica nº 1/2026, ao analisar a geração de imagens sexualizadas pelo sistema Grok, a Agência afirmou que conteúdo sintético que remeta, direta ou indiretamente, a pessoa natural identificada ou identificável configura tratamento de dado pessoal — e recomendou relatório de impacto à proteção de dados pessoais específico para funcionalidades de IA generativa. Inteligência artificial encabeça o Mapa de Temas Prioritários da Agência para o biênio 2026-2027.

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Rótulo obrigatório na Europa a partir de agosto

Em 2 de agosto de 2026 entram em vigor as obrigações de transparência do artigo 50 do Regulamento de IA da União Europeia. Fornecedores de sistemas que geram ou manipulam áudio, imagem, vídeo ou texto sintéticos passam a ter de aplicar marcação legível por máquina, de modo que a saída seja detectável como artificialmente gerada ou manipulada.

Quem implanta sistemas que produzem deepfakes — conteúdo que aparenta reproduzir pessoa real — deve informar isso de forma clara e distinguível, no máximo no primeiro contato do público com o material, ainda que não haja intenção de enganar. O descumprimento pode custar até 15 milhões de euros ou 3% do faturamento anual global, o que for maior. A Comissão Europeia publicou orientações preliminares em 8 de maio de 2026 detalhando quem marca o quê.

Ao anúncio da Netflix falta exatamente o detalhamento que essa moldura vai cobrar: a empresa não discriminou em quais dos 300 títulos a IA generativa entrou nem em que etapa, e a lacuna alimenta a pressão por divulgação. Guillermo del Toro, que adaptou "Frankenstein" para o serviço, declarou ao Deadline em outubro de 2025 que preferiria morrer a usar IA generativa. Sarandos sustentou a posição oposta na teleconferência, ao afirmar que "filmes são feitos por pessoas que fazem filmes".

Na data de 27 de julho de 2026, momento da publicação desta notícia compilada, todos os links estavam disponíveis. Não nos responsabilizamos nem controlamos eventuais alterações, remoções das URLs ou modificações no conteúdo das fontes consultadas.