Unico aciona Serasa por suposto roubo de dados biométricos e obtém busca e apreensão
IDtech acusa Serasa e ClearSale de desviar sua tecnologia de autenticação via fornecedora do Banco do Brasil para alimentar bases e disputar clientes.

A Serasa Experian foi alvo de busca e apreensão conduzida por peritos criminais em São Paulo, em ação que tramita sob segredo de justiça e foi movida pela Unico, líder brasileira em identidade digital e biometria facial, conforme apurou o Pipeline.
A Unico abriu processos nas esferas criminal e cível no que classifica como o maior caso de roubo de dados biométricos do país, sustentando que a Serasa e a controlada ClearSale acessaram indevidamente sua tecnologia de autenticação para alimentar bases próprias e disputar clientes no sistema financeiro.
A Serasa nega ter cometido qualquer fraude e afirma que ainda não teve acesso aos autos. O caso põe sob escrutínio a integridade de bases biométricas, dado pessoal sensível segundo a LGPD, num momento em que a Autoridade Nacional de Proteção de Dados prepara normativa específica sobre o tema.
Skill Tecnologia é acusada de desviar biometria de contrato com BB
Segundo a ação, a fornecedora Skill Tecnologia tinha contrato com a Unico para usar o software de biometria facial exclusivamente em nome do Banco do Brasil, mas estaria redirecionando consultas da Serasa e da ClearSale por esse canal para que prestassem serviço de identificação à própria carteira.
A Unico afirma ter estranhado o crescimento do volume atribuído ao banco e, ao consultá-lo, não encontrou demanda correspondente, enquanto a procura de outros clientes do setor financeiro caía. Os advogados argumentam concorrência desleal, exploração indevida de informações confidenciais e uso de tecnologia obtida por meios fraudulentos.
No Brasil, a concorrência desleal é tipificada na Lei 9.279/96 (arts. 195 e 209), que prevê reparação por atos tendentes a desviar clientela e explorar indevidamente segredos de negócio de concorrente.
Unico aponta fraude com dados biométricos de 22 milhões no BB
A perícia contratada pela Unico identificou ao menos 1,4 milhão de transações tidas como fraudulentas, e a empresa estima que o esquema possa envolver consultas a dados de 22 milhões de brasileiros.
O problema técnico apontado é estrutural: cada consulta concluída fortalece a inteligência do sistema, o que torna complexo expurgar o efeito de dados fraudados de uma base já construída.
Para o jurídico e o compliance de qualquer operador de biometria, o caso ilustra um risco concreto de contaminação de base com dados sensíveis de terceiros e de quebra de exclusividade contratual via intermediário.
A ANPD já classificou a biometria como tecnologia de risco elevado em seu radar tecnológico, por se tratar de dado único e imutável, cujo uso indevido não pode ser revertido como uma senha.
Serasa nega acusação da Unico em ação que corre em segredo de justiça
Procurada, a Serasa Experian afirmou em nota que refuta veementemente a acusação, que o processo corre em segredo de justiça e que ainda não teve acesso a ele, e que se manifestará oportunamente.
A reportagem do Pipeline registra que bancos como Inter, BTG e Itaú confirmaram em inquérito policial que as consultas apontadas como irregulares partiam da Serasa e da ClearSale, sem que as instituições tivessem conhecimento ou participação nas supostas irregularidades.
A Unico não comentou e a Skill Tecnologia não foi localizada. A magnitude financeira ajuda a dimensionar o que está em disputa: a Unico investiu centenas de milhões em infraestrutura ao longo de quase uma década e foi avaliada em US$ 2,6 bilhões na rodada Série D liderada pela Goldman Sachs, enquanto a Experian, dona da Serasa, é listada em Londres e vale cerca de 23 bilhões de libras.
Serasa compra idwall e Cade vai avaliar concentração no setor
O litígio chega num setor em plena consolidação e sob atenção regulatória crescente. Em maio de 2026, a Serasa anunciou a compra da idwall, de soluções antifraude e biometria, por cerca de R$ 450 milhões, com notificação submetida ao Cade e publicada no Diário Oficial da União em 6 de maio; Unico, Certta (ex-CAF), Incognia e Neoway figuram entre os concorrentes diretos.
O Cade avaliará se a operação concentra o mercado de identidade e antifraude. Em paralelo, a ANPD pretende concluir em 2026 a normativa específica sobre dados biométricos, após analisar 1.594 contribuições de 88 participantes na tomada de subsídios encerrada em julho de 2025, sinalizando exigências de transparência e proporcionalidade antes que virem obrigação formal.
Lei 15.397/2026 endurece pena para fraude eletrônica
O contexto penal também mudou. Em 4 de maio de 2026, foi sancionada a Lei 15.397/2026, que alterou o Código Penal para endurecer penas de crimes patrimoniais e criou a figura da fraude eletrônica, com reclusão de 4 a 8 anos, além de furto qualificado por meio eletrônico ou informático.
Especialistas observam que, por elevar penas mínimas a quatro anos em certas modalidades, a lei afasta em regra o acordo de não persecução penal e tende a aumentar denúncias e ações penais.
Esse pano de fundo eleva a temperatura jurídica de disputas que envolvam acesso indevido a sistemas e dados, como a movida pela Unico, e reforça por que jurídico, compliance e governança passam a tratar a cadeia de fornecedores e a exclusividade contratual de tecnologia como vetor de risco corporativo e reputacional.
Na data de 14 de junho de 2026, momento da publicação desta notícia compilada, todos os links estavam disponíveis. Não nos responsabilizamos nem controlamos eventuais alterações, remoções das URLs ou modificações no conteúdo das fontes consultadas.


